Conectividade aérea, calendário favorável e desafios estruturais marcam as projeções do setor
Feriados prolongados, novos voos internacionais e maior conectividade aérea sustentam a expectativa de crescimento do faturamento do turismo potiguar na alta temporada de 2026, segundo avaliam representantes do trade turístico do Rio Grande do Norte. A combinação desses fatores tem alimentado o otimismo do setor, especialmente para os períodos de maior fluxo, como o verão e os feriados nacionais ao longo deste ano.
Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do RN (ABIH-RN), Edmar Gadelha, oito dos nove feriados nacionais de 2026 devem cair próximos aos fins de semana, o que amplia as oportunidades de viagens e estimula o turismo de curta duração. Além disso, o estado passa a viver um novo momento em termos de conexão com o mercado internacional, com a ampliação da malha aérea.
“Estamos entrando em um novo patamar de conexão com o mercado internacional, com os voos diários da JetSMART partindo da Argentina para Natal, somados ao voos aos sábados da GOL a partir de Montevidéu, em três períodos do ano: de 21 de março a 4 de abril, de 4 a 25 de julho e de 5 a 26 de dezembro”, pontuou.
O coordenador da Câmara Empresarial do Turismo (CET) da Fecomércio-RN e diretor da Luck Receptivo, George Costa, também acredita que os feriados ao longo de 2026 devem impulsionar o faturamento do setor. “Devemos fechar 2025 com alta de 6% no faturamento, volume considerado satisfatório para a realidade nacional. E para este ano, nossa expectativa está em torno dos feriados, embora haja um receio em relação ao segundo semestre, com a corrida eleitoral”, avalia.
Já a presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do RN (SHRBS), Grace Gosson, projeta a continuidade do crescimento observado em 2025, mas alerta para desafios que podem impactar os resultados, como o início gradual da vigência dos novos tributos sobre o consumo decorrentes da Reforma Tributária. Segundo ela, esses tributos, possivelmente vão gerar aumento nos preços. “Além disso, há discussões trabalhistas importantes, como o fim da jornada de trabalho 6×1, periculosidade para os motoboys e adicional de insalubridade para as camareiras e ASGs”, avalia.
Empresários da hotelaria, por sua vez, avaliam que 2026 será um ano de estagnação do quadro atual por conta de fatores como a Copa do Mundo, Eleições e dos preços das diárias cobradas no estado. “Por incrível que pareça, durante a Copa nosso setor concorre até com a televisão. As pessoas deixam de viajar para ficar em casa acompanhando os jogos, fala George Gosson, dono da marca Praiamar Hotéis. Em 2026, ele espera manutenção do faturamento, com ganho real em torno de 3% a 5%.
Abdon Gosson, do hotel Majestic Natal, afirma ser esperado um incremento nos ganhos de 2026, os quais serão suficientes apenas para repor as perdas com a inflação. “O incremento vai existir, mas é preciso analisar a proporcionalidade dele. Por isso, destaco a importância do reajuste nas diárias médias da nossa hotelaria”, frisa.
Otimismo nos segmentos
A alta temporada, iniciada em dezembro passado, tem gerado otimismo em diferentes segmentos do trade, como o de alimentação fora do lar. Segundo as fontes ouvidas, no entanto, ainda são necessárias ações que fomentem o setor. No restaurante Marechal, o trabalho é estratégico para bem receber os visitantes.
“Nossas expectativas para esta alta temporada são sempre positivas, mesmo estando localizados em um bairro que não possui grande fluxo turístico. Ainda assim, com o trabalho que realizamos há algum tempo, conseguimos atender a uma demanda que varia de média a média alta”, diz Uelinton Ribeiro, proprietário do estabelecimento.
“Entendemos que esse movimento poderia ser ainda melhor se houvesse mais incentivo nos bairros onde estamos inseridos, especialmente Tirol e Petrópolis. Nesse período do ano, esses locais costumam ficar mais tranquilos e vazios”, acrescenta o empresário. Já Clara Bezerra, do Camarões Potiguar, afirma que a projeção para janeiro é de um excelente resultado, uma vez que o fluxo de turistas na cidade aumenta.
“Janeiro é, historicamente, um mês fora da curva. O movimento nas lojas de Ponta Negra reflete, na mesma proporção, o grande fluxo turístico da cidade, mais de 30% acima dos demais meses. É um período que abrimos todos os dias e contamos com nossas equipes completas, prontas para oferecer a melhor experiência. A presença do turista na cidade já nos deixa otimistas de que teremos um excelente verão”, ressalta.
O presidente da Abrasel, Thiago Machado, explica que, de um modo geral, o setor de alimentação fora do lar sofre uma sazonalidade ligada diretamente à localização de cada estabelecimento. Ao contrário do que ocorre em regiões como Ponta Negra, estabelecimentos de bairros mais centrais, como Lagoa Nova, Petrópolis e Lagoa Seca, costumam sofrer na alta temporada com o êxodo de moradores para as áreas de veraneio. “Por isso, algumas dessas casas montam estruturas nas praias onde tem mais movimento”, fala Machado.
Presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares (SHRBS), Grace Gosson vê a temporada com otimismo graças ao aumento na oferta de voos internacionais, principalmente da Argentina. “O RN tem muito a se beneficiar da ‘invasão’ dos argentinos, porque além de gastar com serviços do turismo, os hermanos acabam por fazer compras, aquecendo o comércio local. E esse tipo de viajante, que vai além do turismo de sol e mar, amplia o leque de atividades econômicas alcançadas pela visita”, detalha.
De acordo com Decca Bolonha, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Turismo do RN (Sindetur), que também comanda a empresa de receptivos Potiguar Turismo, é preciso uma atenção maior a este segmento. “As operadoras estão vendendo, mas é preciso trabalhar receptivos que atendem os turistas do RN. Em 2025, o segmento não teve o resultado esperado, mas também não houve prejuízos”, disse. “Na Potiguar Turismo registrou aumento de faturamento de cerca de 5% a 10%. Acreditamos em um crescimento maior para este ano pelo trabalho que está sendo desenvolvido no setor”, projeta.
Crescimento moderado no setor em 2025
O ano de 2025 foi considerado de crescimento moderado, mas persistente para o turismo potiguar, conforme avaliação do trade. O destaque foi para a chegada de visitantes estrangeiros, que registrou alta de 44,9% entre novembro e janeiro do ano passado (foram 78,6 mil turistas), no comparativo com igual período de 2024 (50,1 mil). Os dados são da Empresa Potiguar de Promoção Turística (Emprotur). Em relação aos turistas brasileiros que chegaram ao RN, os números são considerados mais tímidos, embora apontem para um aumento de 26,8% entre janeiro e outubro de 2025. Em todo o ano de 2024, 285 mil brasileiros visitaram o estado, segundo o IBGE.
Fontes ouvidas pela reportagem analisam que os números sobre a chegada de brasileiros ao RN apontam para uma estabilidade ao longo de 2025. “Ainda assim, crescemos nas principais praças emissoras de turistas do País”, avalia Raoni Fernandes, presidente da Emprotur. Os dados fornecidos pela Empresa de Promoção Turística, com base na plataforma ForwardKeys, demonstram que as cidades de São Paulo (com envio de 137,4 mil turistas), Rio de Janeiro e Brasília (com 31,5 mil turistas cada), além de Belo Horizonte (19,5 mil), foram os maiores emissores de visitantes ao estado em 2025.
Entre os mercados em crescimento na quantidade de turistas que vieram conhecer as belezas potiguares, o grande destaque foi Vitória, com alta de 132,5% (chegada de 8,3 mil turistas vindos da capital capixaba entre janeiro e outubro de 2025); Porto Alegre, com envio de 12,4 mil turistas no mesmo período (alta de 38% em relação a janeiro e outubro de 2024) e Cuiabá, com 8,8 mil visitantes (alta de 14,5%). Edmar Gadelha, da ABIH-RN, disse que, para o setor de hospedagem, 2025 foi um ano de recuperação consistente e de crescimento moderado.
“A avaliação é positiva, principalmente pelo aumento da oferta de voos domésticos, além dos investimentos em promoção turística realizados pelo governo estadual e pelas entidades do trade turístico, como a ABIH-RN. A percepção é que o fluxo de turistas voltou a patamares próximos ao pré-pandemia”, afirmou Gadelha.
Para Decca Bolonha, do Sindetur, a grande expectativa é para 2026. Ela destaca que os resultados do ano passado são fruto de um esforço conjunto. “O governo promove o destino e o trade vende”, fala.
George Costa, coordenador da Câmara Empresarial do Turismo (CET), da Fecomércio RN, também ressaltou os esforços conjuntos e reforçou o crescimento do turismo internacional como ferramenta de desenvolvimento do setor em 2025. Em termos de promoção o poder público foi bem assertivo. Obviamente, ainda não há o volume desejado, mas a gente acredita em um saldo positivo”, frisa Costa.
Fonte: Tribuna do Norte