Setor Produtivo do Rio Grande do Norte defende que ao longo das últimas décadas, Natal e o estado ganharam muito com o trabalho dos hotéis da Via Costeira
Para Edmar Gadelha, presidente da ABIH-RN, a suspensão das concessões produz dois tipos de efeitos. “No curto prazo, o impacto é negativo: aumenta a percepção de risco, paralisa decisões de investimento e dificulta o acesso a financiamento”, afirma. No médio e longo prazos, pode haver uma janela de oportunidades.
“Se o processo resultar em um reordenamento mais eficiente das áreas, com regras claras e exigência de execução efetiva dos projetos, a área pode se tornar mais atrativa para investidores qualificados”, avalia Gadelha. “Projetos turísticos exigem alto capital, planejamento complexo e retorno de longo prazo. Qualquer instabilidade regulatória tende a interromper esse ciclo”, acrescenta.
Já Grace Gosson, presidente do Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do RN (SHRBS-RN), diz que a decisão de suspensão das concessões na Via Costeira “insere-se em um contexto mais amplo de insegurança jurídica que, há décadas, impacta a região”.
“Reconhecemos que a liminar demonstra preocupações relevantes quanto ao descumprimento de obrigações contratuais e à necessidade de observância do modelo constitucional de contratação pública, especialmente no que se refere à exigência de licitação para a outorga de uso de bens públicos”, ressalta Gosson.
Ela avalia, contudo, que a suspensão gerará, no curto prazo, “um impacto relevante na percepção de risco por parte dos investidores, sobretudo em um ambiente que já convive historicamente com incertezas regulatórias e jurídicas”.
A Federação das Indústrias do RN (Fiern) avalia a medida cautelar com preocupação. “Precisamos de soluções que valorizem os empreendimentos e os empreendedores. Ao longo das últimas décadas, Natal e o Rio Grande do Norte ganharam muito com o trabalho dos hotéis da Via Costeira, de seus empreendedores e colaboradores”, diz Roberto Serquiz, presidente da entidade.
Para ele, contudo, a leitura da decisão exige cuidado e dispensa alarmismos. “No curto prazo, a medida pode representar um obstáculo, uma vez que investidores tendem a aguardar o desfecho do processo no TCE antes de tomar decisões de alocação de capital na região. Esse comportamento é esperado em cenários de regularização em curso e pode gerar impactos no curto e médio prazo”, afirma. “Decisões jurídicas simultâneas geram insegurança jurídica e afetam diretamente o ambiente de negócios”, acrescenta.
“O que está em jogo não é apenas o desenvolvimento da hotelaria, mas o fortalecimento de toda a cadeia produtiva do turismo, que tem um efeito multiplicador significativo sobre comércio e serviços. Cada decisão que favoreça um ambiente mais competitivo e atrativo para investimentos terá impacto direto na geração de oportunidades para a população”, afirma Marcelo Queiroz, presidente da Fecomércio-RN.
Turismo tem efeito multiplicador na economia local
A Fecomércio-RN destaca um efeito multiplicador do turismo, que impacta 70 atividades econômicas do setor de serviços, como alojamento, alimentação, agenciamento de viagens, transporte, cultura, esporte e lazer. Já a ABIH-RN destaca que, em 2024, o setor tinha 36 mil empregos formais no RN.
Cada R$ 1,00 de receita de turismo tem o potencial de gerar R$ 1,59 de impacto na economia como um todo, segundo estimativas da Confederação Nacional do Comércio. “O turismo é uma das principais engrenagens da economia do Rio Grande do Norte e, em especial, de Natal. Estamos falando de um setor que movimenta, na capital, mais de R$ 6,5 bilhões por ano e impacta diretamente 70 atividades econômicas, gerando emprego, renda e arrecadação para o estado e os municípios”, explica Marcelo Queiroz.
A análise é de que o turismo cresceu em Natal em 2025, mas ficou aquém do seu potencial. No ano, Natal foi a capital do Nordeste que menos gerou empregos no setor turístico (+691). Na média da região, o número de empregados no turismo cresceu 5,1%.
Quanto à movimentação de passageiros no Nordeste em 2025, o Aeroporto Internacional de Natal foi o que menos registrou crescimento nesse índice, na comparação entre os 10 maiores aeroportos da região. A alta de 0,7% ficou abaixo da média regional (+6,0%) e nacional (+9,5%). Por outro lado, a movimentação exclusivamente de passageiros em voos internacionais foi recorde em 2025 no Aeroporto Internacional de Natal (100,5 mil).
No primeiro bimestre de 2026, houve aumento na atividade turística na capital potiguar, mas abaixo da média regional. O Aeroporto Internacional de Natal ampliou em 14,1% a movimentação de passageiros no 1º bimestre deste ano, na comparação com o início de 2025. Essa taxa de crescimento, porém, ficou abaixo da média do Nordeste (+14,4%).
O estudo da Fecomércio-RN também aponta que Natal registrou saldo de demissões em turismo no acumulado do 1º bimestre (-2), em plena alta temporada. O resultado foi puxado pelo fechamento de 36 postos de trabalho em restaurantes e de sete vagas em cultura e arte. Houve abertura de 26 vagas em hotelaria.
“O setor de Turismo em Natal tem infraestrutura e potencial para crescer mais, porém está enfrentando dificuldades para transformar oportunidades em investimentos e geração de emprego e renda. Muito por conta de um ambiente ainda pouco competitivo, falta de renovação dos atrativos turísticos e entraves, como da Via Costeira, que afastam novos investidores, limitando o crescimento econômico do setor e por conseguinte da cidade”, destaca a “Análise do Turismo Natalense”.
Marcelo Queiroz reforça que o turismo de Natal cresce abaixo do potencial. “Natal tem perdido participação no fluxo de passageiros, cresce menos que a média do Nordeste e ainda enfrenta dificuldades para transformar oportunidades em novos investimentos. Isso exige de todos nós uma reflexão e, principalmente, ação coordenada”, diz.
“Há um desafio para a cidade: destravar os investimentos em turismo, destravar o crescimento da movimentação de passageiros no aeroporto, porque o turismo é muito importante. A capital representa quase 60% do turismo do estado. E, para a economia da capital, o turismo representa mais de 11%”, frisa o economista William Figueiredo.
Via Costeira é vetor da economia na capital
Na avaliação das entidades ouvidas pela reportagem, a Via Costeira é um dos principais vetores do turismo na capital potiguar, gerando emprego, renda e arrecadação de impostos. A ABIH-RN aponta que a região gera um efeito multiplicador na economia de Natal. “Qualquer instabilidade na Via Costeira não afeta apenas a hotelaria, mas toda a cadeia produtiva ligada ao turismo”, diz Edmar Gadelha.
“O problema central é que parte desse potencial está travado. A existência de projetos não executados, somada à insegurança regulatória, limita novos aportes e impede a plena ocupação da área. Na prática, isso significa menos empregos, menor arrecadação e perda de competitividade frente a outros destinos turísticos”, afirma Gadelha.
Já o SHRBS-RN destaca que a Via Costeira é um dos principais ativos estratégicos do turismo do RN, posicionando Natal como destino turístico nacional e internacional. “Trata-se de uma área planejada para integrar desenvolvimento econômico, atividade turística e preservação ambiental, conectando importantes equipamentos hoteleiros a um dos mais relevantes patrimônios naturais do Rio Grande do Norte”, diz Grace Gosson.
“Sua vocação histórica está diretamente ligada à geração de emprego, à atração de investimentos e ao fortalecimento da cadeia produtiva do turismo e de diversos segmentos correlatos — desde o serviço de transporte responsável pelo embarque e desembarque de turistas, até o comércio de artesanato e a gastronomia —, sendo fundamental para a dinâmica econômica da capital”, observa a presidente da SHRBS-RN.
“A Via Costeira é um ativo estratégico, com capacidade de atrair mais investimentos, ampliar a oferta hoteleira e gerar milhares de empregos. Nossas estimativas mostram que a ocupação dos terrenos disponíveis poderia viabilizar mais de R$ 1,4 bilhão em investimentos e injetar quase R$ 600 milhões por ano na economia local”.
Fonte: Tribuna do Norte